
Este artigo é um trecho do guia Shortform sobre Shortform “Simpósio”, de Platão. Shortform os melhores resumos e análises do mundo sobre os livros que você deveria estar lendo.
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O que é o amor? Como o amor se relaciona com a filosofia? Como ele pode levar à felicidade humana?
O filósofo grego Platão aborda essas questões e outras ainda em seu *Simpósio*, uma obra que defende que é o desejo apaixonado, e não a análise fria e imparcial, que move a filosofia. O *Simpósio* também oferece uma visão sobre as opiniões de Platão a respeito da felicidade, da educação e da procriação.
Segue-se uma breve visão geral do "Simposio" de Platão sobre o amor.
O Simpósio de Platão sobre o Amor
O "Simposio" de Platão conta a história de um grupo de homens atenienses reunidos em uma festa, todos proferindo discursos em louvor ao amor. Seus discursos e discussões logo os levam a tentar responder à pergunta: "O que é o amor?" Platão explora essa questão por meio dos diferentes personagens presentes e, nesse processo, explica a conexão entre o amor e a filosofia.
Neste artigo, exploraremos o "Simposio" de Platão sobre o amor em três partes:
- Os primeiros discursos sobre os benefícios do amor (os discursos de Fedro, Pausânias, Erisímaco e Aristófanes)
- Descrições do deus do amor ( discursos de Agatão e Sócrates)
- A descrição do amor feita por Diotima (discurso de Sócrates)
(Shortform : Assim como todas as obras de Platão, o “Simposio” é um diálogo: uma obra filosófica escrita na forma de uma conversa fictícia entre personagens. A forma do diálogo permite que Platão introduza ambiguidades intencionais e significados implícitos não apenas através do que é dito, mas também de quem o diz, por que o diz e como o diz. Assim como na maioria dos outros diálogos de Platão, a maioria dos personagens do “Simposio”são pessoas reais da Atenas do século IV a.C. Nosso guia explicará quem eram, na verdade, os principais personagens do Simpósioe como isso pode influenciar as ideias filosóficas da obra.)
Parte 1: Primeiros discursos sobre os benefícios do amor
Os quatro primeiros discursos do diálogo abordam como o amor pode beneficiar uma pessoa. Esses discursos se enquadram em duas categorias:
- O amor como virtude: Fedro , Pausânias e Erisímaco começam discutindo que tipo de amor torna uma pessoa virtuosa — em outras palavras, qual é a melhor e mais moral maneira de amar.
- O amor como plenitude: Em seguida , Aristófanes fala sobre como o amor “completa” a vida de uma pessoa.
Nesta primeira parte do nosso guia, explicaremos os principais argumentos de cada discurso sobre os benefícios do amor.
O amor como virtude
Fédro profere o primeiro discurso que estabelece uma ligação entre o amor e a virtude, enquanto Pausânias e Erísimaco aprofundam esse argumento posteriormente.
O discurso de Fedro
Em seu discurso, Fedro argumenta que todoformas de amor são benéficas e louváveis porque tornam as pessoas mais virtuosas. Todos querem que as pessoas que amam os tenham em alta conta; assim, quando uma pessoa está apaixonada, ela se sente mais motivada a praticar boas ações e mais envergonhada de suas más ações.
Discurso de Pausânias
Pausânias discorda do argumento de Fedro de que todo amor é louvável, afirmando, em vez disso, que alguns tipos de amor são virtuosos e outros não. Pausânias explica que o amor virtuoso se concentra na inteligência, e não na fisicalidade. Pessoas que amam apenas pelo prazer físico não distinguem entre boas e más ações em prol desse prazer — e, portanto, não são virtuosas. Ele acredita que o amor mais virtuoso é um relacionamento duradouro e comprometido entre dois homens: os homens são mais inteligentes e um relacionamento duradouro permite que um amante desenvolva melhor a inteligência de seu amado.
Discurso de Erixímaco
Erixímaco concorda em grande parte com Pausânias sobre o amor virtuoso, mas altera ligeiramente sua definição. Ele sugere que o amor virtuoso exige moderação em todos os amores e desejos. O excesso e a obsessão levam as pessoas a causar danos ou prejudicar sua saúde (da mesma forma que comer ou beber demais afeta negativamente a saúde ou o discernimento), portanto, conclui-se que a moderação leva ao bem. Erixímaco também sugere que o amor não se aplica apenas ao sexo e aos relacionamentos — afinal, as pessoas também amam as artes e atividades como esportes ou música.
Aristófanes e o amor como plenitude
Após os três primeiros discursos, que tentam definir o amor como algo virtuoso e benéfico, Aristófanes aborda o tema sob uma nova perspectiva. Ele conta uma história fantástica, sugerindo que o amor permite que a pessoa se realize plenamente: os seres humanos costumavam ser duas pessoas em uma, fundidas de costas uma contra a outra. No entanto, tornaram-se arrogantes, e os deuses os dividiram ao meio como castigo. Agora, o amor e o sexo são tentativas humanas de retornar àquele estado anterior de união, de “totalidade”. A partir dessa história, Aristófanes tira três conclusões principais:
- As pessoas têm “almas gêmeas”. Aristófanes sugere que todos ainda têm sua outra metade em algum lugar do mundo, e que são perfeitos um para o outro.
- O amor é o desejo de se sentir completo. O que as pessoas vivenciam como amor é, na verdade, apenas o seu desejo de se sentirem completas novamente. É por isso que as almas gêmeas que se encontram permanecem juntas por toda a vida — é o mais perto que conseguem chegar de se sentirem completas novamente.
- A homossexualidade (especialmente entre homens) é natural e moral. Aristófanes afirma que alguns dos “duplos humanos” eram casais formados por duas mulheres ou dois homens — e, portanto, seu amor resulta da mesma “divisão” divina que criou a heterossexualidade. Além disso, Aristófanes sugere que os homens homossexuais são mais corajosos e viris — e, portanto, mais morais — do que os homens heterossexuais, pois também se sentem atraídos por essas características nos outros.
(Shortform : Se você acha que o discurso de Aristófanes parece fora de contexto, você está certo — e os estudiosos sugerem que Platão fez isso de propósito. Em geral, os homens no *Simpósio* falam da esquerda para a direita, e cada discurso desenvolve as ideias do anterior. No entanto, Aristófanes quebra ambas as regras — eles o ignoram até mais tarde, e as ideias de seu discurso existem, em grande parte, de forma independente. Os estudiosos sugerem que isso é uma forma de Platão afirmar que Aristófanes (um dramaturgo cômico ferrenhamente conservador e forte crítico de Sócrates) e outros como ele não contribuem para o desenvolvimento da sabedoria — e até mesmo o perturbam.)
Parte 2: Descrições do Deus do Amor
O discurso de Agatão aborda novamente o amor sob uma nova perspectiva —não tratando dos benefícios do amor, mas sim o próprio amor: Eros, o deus do amor.
(Shortform : Para compreender melhor a distinção que Agatão faz entre o amor e o deus do amor, vamos examinar a palavra grega para amor usada no *Simposio*: eros. Eros significa amor no sentido de desejo apaixonado, geralmente em um contexto sexual (a palavra em inglês “erótico” deriva de eros). No entanto, Eros é também o nome do deus do amor e da atração sexual— um deus que os romanos chamavam de Cupido. No início de seu discurso, Agatão argumenta que os outros falaram apenas do sentimento eros, e não do deus Eros. Para deixar essa diferença clara, nosso guia usará Eros para descrever o deus e “amor” para descrever o sentimento —embora “eros” tecnicamente se aplique a ambos.)
Esta segunda parte do nosso guia explicará as principais ideias da descrição que Agatão faz de Eros, bem como a refutação de Sócrates e sua descrição alternativa.
A descrição de Eros feita por Agatão
Agatão descreve Eros como possuidor de muitas qualidades — mas essas qualidades tendem a se enquadrar em três categorias:
- Eros é o amado: Agatão descreve Eros como um amado — uma criatura de beleza, graça e juventude eterna, que é desejada pelos outros, em vez de ser ela própria quem deseja. Todos desejam Eros, mas ele se cerca apenas de outras coisas belas e delicadas.
- Eros é um artista: concordando com Erixímaco de que o amor pode se aplicar a todas as artes e habilidades, Ágaton afirma que Eros deve ser um especialista em todas elas. Visto que o amor inspira as pessoas a se tornarem grandes artistas, então o deus do amor deve possuir ele próprio o talento para transmiti-lo aos outros.
- Eros é bom: Agatão sugere que o amor é incompatível com a injustiça ou com outros males — por isso, Eros é sempre justo, generoso e moral em seus relacionamentos e ações.
(Shortform : O contexto histórico ajuda a contextualizar as ideias do discurso de Agatão. Agatão era um poeta da Atenas antiga, conhecido por suas peças trágicas e por sua incrível beleza física. Ele também era o amado de Pausânias (que falou anteriormente no diálogo), em um relacionamento que acabou durando 30 anos (muito mais do que era comum na pederastia). Com base nesses detalhes, os estudiosos geralmente sugerem que Agatão se compara a Eros em seu discurso— ele fala da grande beleza física e da poesia de Eros, e de sua virtude nos relacionamentos (algo que o amante de Agatão, Pausânias, também discute). Ao se comparar a Eros, Agatão reforça ainda mais sua visão de que Eros é o amado em um relacionamento pederástico.)
A descrição de Eros feita por Sócrates e Diotima
Sócrates elogia a beleza do discurso de Agatão e, em seguida, informa-lhe educadamente que tudo o que ele disse estava errado. Em seguida, Sócrates faz seu próprio discurso sobre o amor. Seu discurso consiste principalmente em relatar uma conversa que teve no passado com uma mulher sábia chamada Diotima. Diotima, diz ele, ensinou-lhe tudo o que ele sabe sobre o amor. No restante deste guia, discutiremos a explicação de Diotima — mas tenha em mente que Sócrates é, na verdade, a pessoa presente e falando na festa.
(Shortform : num diálogo que trata principalmente da vida intelectual e homoerótica dos homens, pode parecer confuso que Sócrates cite uma mulher para fundamentar suas visões sobre o amor. Os estudiosos sugerem que Sócrates cita Diotima como forma de ganhar credibilidade. Diotima fala longamente sobre parto, gravidez e reprodução (assuntos que discutiremos mais adiante neste guia), todos temas fortemente associados às mulheres e à feminilidade na Atenas antiga. Esses estudiosos sugerem, portanto, que Sócrates (e talvez Platão por meio dele) usa Diotima para apelar a essa “especialização” feminina percebida em seus argumentos.)
Segundo Diotima, Eros não é amado, mas sim um amante— alguém que deseja e busca coisas belas. Em vez de um deus suave, jovem e belo, ele é um espírito velho, forte e endurecido. Ele atua como um mensageiro entre os humanos e os deuses, levando as orações e oferendas humanas aos deuses e as instruções ou bênçãos divinas aos humanos.
(Shortform : Platão evoca Sócrates — um homem idoso e enrugado em busca da beleza e da sabedoria — com essa descrição de Eros. As obras de Platão (e o *Banquete*, em particular) são algumas das únicas descrições que sobreviveram sobre quem era Sócrates e como ele era — outras descrições incluem a peça de Aristófanes As Nuvens (uma peça cômica que satiriza Sócrates e sua filosofia) e os diálogos do filósofo Xenofonte. Todas essas três obras apresentam Sócrates como distraído, desleixado e mais interessado no conhecimento do que no mundo concreto ao seu redor. Ao fazer com que Diotima descreva Eros de maneira semelhante, Platão sugere que Sócrates é o homem erótico ideal — uma afirmação que faz mais sentido quando Diotima relaciona amor e filosofia.)
Para explicar essa conclusão, ela aprofunda a definição do ato de amar e o que isso revela sobre Eros.
O que é amar
Diotima começa descrevendo o ato de amar — afinal, amar é, por definição, o que Eros faz. Ela chega às duas conclusões a seguir:
- O amor requer um objeto: o amor só existe em relação a outra coisa. Por exemplo: “Aristófanes ama o vinho”. Sem o objeto, a frase não faz sentido: “Aristófanes ama” não significa nada.
- As pessoas amam o que não têm: amar um objeto significa desejá-lo, e ninguém desejaria algo que já possui. Se alguém diz que ama algo que já tem, isso na verdade significa que deseja continuar tendo-o.
(Shortform : Alguns estudiosos sugerem que, devido a essas duas conclusões, Platão apresenta uma visão trágica do amor. Por definição, Platão afirma que amamos aquilo que não temos e que nunca poderemos obter — se algum dia conseguíssemos o objeto do nosso amor, ou deixaríamos de amá-lo ou nos preocuparíamos em perdê-lo no futuro. Ela sugere que aqueles com um excesso desses desejos muitas vezes acabam se tornando figuras trágicas, com vidas definidas pelo anseio, pela incompletude ou pela falta de satisfação. Ao ler o restante do guia, tenha em mente como a visão de Platão sobre o amor pode criar tal figura trágica — especialmente quando chegarmos ao discurso de Alcibiades.)
O que Eros não é
Com base em suas conclusões sobre o amor, Diotima destaca quatro coisas que Eros não é:
- Eros não é belo: Eros deseja a beleza, e as pessoas desejam aquilo que não têm. Portanto, Eros não é belo.
- Eros não é bom: todas as coisas boas são belas — é por isso que são atraentes. Como Eros deseja a beleza, segue-se que ele também deseja o bem e, portanto, não é bom em si mesmo.
- Eros não é sábio: a sabedoria é uma qualidade boa e bela, portanto, Eros deve desejá-la — e, por isso, carece dela.
- Eros não é um deus: os deuses são seres perfeitos a quem nada falta — como Eros carece de beleza, bondade e sabedoria, conclui-se que ele não é um deus.
No entanto, isso não significa que Eros seja feio, mau, ignorante e mortal — ao contrário, ele se situa em algum ponto entre todos esses extremos. Alguém que é totalmente mau não deseja o bem, e alguém que é totalmente ignorante não tem consciência de sua ignorância e, portanto, não deseja a sabedoria. Assim, Eros possui sabedoria e bondade suficientes para reconhecer o que lhe falta — e para reconhecer que deseja isso.
(Shortform : A Apologia esclarece o que significa estar “entre extremos”, particularmente os extremos da sabedoria e da ignorância. Na Apologia, Sócrates distingue entre sabedoria divina e sabedoria humana: a sabedoria divina (a sabedoria dos deuses) é o conhecimento absoluto de todas as coisas, enquanto a sabedoria humana é a capacidade de reconhecer o quão pouco você realmente sabe. Sócrates sugere que é melhor as pessoas reconhecerem o que não sabem do que presumirem incorretamente que possuem conhecimento — reconhecer que não se sabe nada incentiva a aprender e a examinar o mundo ao seu redor. Diotima descreve Eros como possuidor de um tipo semelhante de sabedoria, já que ele tanto deseja o conhecimento quanto carece da sabedoria divina dos deuses.)
Parte 3: A descrição do amor feita por Diotima
Depois de descrever Eros, Diotima aborda a experiência humana do amor. Ela conclui que o principal objeto do amor é não a beleza.
Nesta terceira parte do nosso guia, vamos explicar a visão de Diotima sobre o amor humano, abordando o que os seres humanos amam, por que amam e como devem amar.
O que adoramos
Para compreender a experiência humana do amor, Diotima começa por definir o que os seres humanos amam. Ela sugere que, em vez da beleza, o principal objeto do amor humano é a bondade. Isso porque a bondade traz felicidade às pessoas — uma vida significativa e bem vivida. Por definição, uma vida boa é uma vida feliz.
Além disso, Diotima conclui que os seres humanos desejam a imortalidade: como já foi explorado anteriormente, se as pessoas têm coisas boas, elas desejam continuar a tê-las. Portanto, as pessoas querem ter coisas boas para sempre coisas boas. Quanto mais tempo alguém vive, mais tempo pode desfrutar dessas coisas boas; assim, ao desejar o bem, as pessoas desejam a imortalidade.
(Shortform : Para entender o que Platão entende por felicidade, é útil considerar a palavra grega original: eudaimonia. Eudaimonia é geralmente traduzida como “felicidade”, embora não corresponda inteiramente à nossa definição moderna. Enquanto costumamos pensar na felicidade como uma emoção positiva temporária, eudaimonia se refere a um estado geral de viver a vida de forma excelente. O estado mais estável e duradouro de eudaimonia também explica por que Diotima diz que as pessoas desejam o bem permanente — ela está dizendo que as pessoas querem viver sempre de forma excelente, não que queiram experimentar sempre pura alegria ou êxtase.)
Por que gostamos
Diotima sugere que o propósito do amor é a reprodução, seja no sentido físico (gerar um filho) ou no sentido mental (gerar virtude e sabedoria). Gerar descendentes físicos ou mentais é o mais próximo que um ser humano pode chegar de se tornar imortal (e, portanto, de desfrutar permanentemente das coisas boas). Os descendentes de um indivíduo viverão muito mais tempo do que ele — os filhos físicos levarão adiante partes de seus ancestrais, e grandes obras de arte, ideias ou atos virtuosos costumam ser lembrados muito tempo após a morte de seus criadores.
Diotima destaca, em particular, a importância dos filhos espirituais — uma grande obra ou um grande feito perdura muito mais tempo do que qualquer filho físico e, por isso, aproxima seu criador da imortalidade.
(Shortform : Parece que Platão contradiz seus outros diálogos ao afirmar aqui que nos reproduzimos porque desejamos a imortalidade. Em várias de suas outras obras (incluindo o Menon e Fédon), Platão argumenta que as pessoas têm almas imortais (sua ideia de alma é semelhante à mente ou ao eu) que renascem em muitos corpos diferentes. Isso levanta a questão: se nossas almas são imortais, por que a reprodução é o mais próximo que podemos chegar da imortalidade? Alguns estudiosos argumentam que essa é uma inconsistência em que Platão recorre temporariamente a um ponto de vista mais pragmático e cético. Outros sugerem que, no Simpósio, Platão fala sobre a imortalidadeindividual — a imortalidade de uma pessoa, em vez da imortalidade de sua alma (que, com o tempo, habita muitas pessoas).)
O amor como reprodução
Segundo Diotima, todos estão grávidos de alguma forma — cada indivíduo tem o potencial de gerar descendentes físicos ou mentais. No entanto, as pessoas só podem dar à luz na presença da beleza:
Em termos físicos, a beleza estimula as pessoas a procurarem parceiros sexuais adequados e as deixa felizes e relaxadas o suficiente para praticarem sexo (ou, mais tarde, darem à luz).
(Shortform : Você pode se perguntar por que Diotima sugere que homens e mulheres podem engravidar fisicamente. Os estudiosos sugerem que Platão se refere à ejaculação como a forma masculina de gravidez e parto: um homem excitado fica grávido e dá à luz ao ejacular. Essa concepção do parto masculino reforça ainda mais a conexão que Platão tenta estabelecer entre beleza e parto — a beleza inspira a excitação sexual, o que permite que um homem “dê à luz” e ejacule durante a relação sexual.)
Em um sentido espiritual, um corpo belo ou uma mente bela inspiram novas ideias. Mais especificamente, Diotima sugere que uma amada com mente e corpo belos pode inspirar um amante a gerar descendentes intelectuais de excelência. Esses filhos intelectuais são discursos sobre a virtude ou a sabedoria que constituem o componente educacional de uma relação pederástica.
(Shortform : Platão parece ter duas visões contraditórias sobre a prole intelectual em uma relação pederástica. Ele menciona uma delas logo acima: um amado belo inspira seu amante a gerar prole intelectual. No entanto, em Teeteto sugere que Sócrates atua como uma “parteira da alma” — assim como uma parteira normal ajuda a dar à luz descendentes físicos, Sócrates ajuda a dar à luz descendentes mentais. Essa metáfora sugere que o amante (Sócrates) na verdade inspira o amado a gerar descendentes intelectuais. Os estudiosos sugerem que essa contradição pode resultar da personalidade de Platão e de seus sentimentos ambíguos em relação ao desejo homossexual— a visão do Simpósioparece celebrar esses desejos, enquanto o Teeteto adota uma abordagem mais contida.)
Como devemos amar
Como as pessoas só dão à luz na presença da beleza, conclui-se que a beleza é essencial para uma vida boa — mesmo que não seja o objetivo principal do amor. Diotima explica então como buscar a beleza e gerar descendentes de forma a alcançar a vida mais feliz possível.
A Ascensão
Diotima explica que a melhor maneira de buscar a beleza passa por uma jornada de autorrealização que ela chama de “ascensão”: um processo de aprender a amar coisas belas que são cada vez mais boas e significativas.
- O desejo natural de beleza de um ascendente o inspira a criar descendentes intelectuais — em outras palavras, o inspira a desenvolver suas habilidades racionais e a dedicar-se à filosofia.
- Uma dedicação de longa data ao raciocínio e à reflexão sobre a beleza acaba por permitir ao ascendente compreender o que a beleza em si realmente é — e, uma vez que todas as coisas boas são belas, essa compreensão da beleza em si permite ao ascendente compreender o que a bondade em si é.
- Diotima descreve esse entendimento em termos de reprodução intelectual — na presença da beleza absoluta, o aluno pode gerar descendentes intelectuais que são absolutos e universalmente verdadeiros.
Quem concluir a ascensão terá uma vida feliz (uma vida significativa e bem vivida). Nesse ponto, terá gerado descendentes intelectuais que são permanentemente e absolutamente bons — pois esses descendentes revelam verdades eternas sobre a própria bondade. Gerar descendentes eternos e bons é o que mais aproxima o ser humano da imortalidade.
Os degraus da subida
Diotima descreve seis etapas da ascensão:
1) O amor por um corpo belo: em primeiro lugar , o ascendente sente-se fisicamente atraído por um corpo belo, o que o inspira a gerar descendentes intelectuais.
2) Amor por todos os corpos belos: O ascendente acabará por reconhecer que não há motivo para desejar um corpo fisicamente belo mais do que outro, já que todos compartilham atributos de beleza em comum. Portanto, o ascendente passa a amar todos os corpos belos.
3) O amor por todas as mentes brilhantes: À medida que o ascendente continua a raciocinar e a gerar frutos mentais, o foco de seu desejo passará da beleza física para a beleza mental — ele começará a amar pessoas sábias e de bom caráter, independentemente de sua aparência física.
4) Apreciação pelas atividades e instituições belas: assim que o ascendente reconhecer a beleza das mentes das pessoas sábias e virtuosas, passará a valorizar as atividades, as leis e os sistemas da sociedade que dão origem a essas mentes belas.
5) Amor pelo conhecimento belo: O ascendente compreenderá o que dá origem a mentes, atividades e instituições belas — o conhecimento. A partir daí, ele passará a amar a beleza do conhecimento humano e a buscá-lo.
6) O amor pela beleza em si: Ao buscar o conhecimento belo e gerar frutos intelectuais, o ascendente amplia o alcance de seu conhecimento e de sua razão até que, finalmente, consiga compreender algo da própria beleza. Esse conceito abstrato de beleza é perfeito, eterno e imutável — todas as coisas belas fazem parte dele, mas, em comparação, todas apresentam imperfeições.
(Shortform : Os estudiosos frequentemente debatem a seguinte questão ao discutir os degraus da ascensão: quando alguém ascende, deixa de amar os objetos dos degraus anteriores? Por exemplo, alguém que se encontra no quinto degrau deixa de amar pessoas concretas? Alguns estudiosos sugerem que a ascensão estabelece uma hierarquia rígida e que os ascendentes deixam de amar indivíduos em favor de objetos ou teorias abstratas. Outros argumentam que, embora a ascensão priorize ideias abstratas, ela não impede que um ascendente ame um indivíduo. Dessa perspectiva, o ascendente ainda pode apreciar a beleza dos degraus inferiores — ele apenas dedicará menos tempo a isso à medida que ascende mais.)
Alcibiades e o amor de Sócrates
No final da discussão de Sócrates sobre o amor, o jovem Alcibiades aparece de surpresa na festa, bêbado, e faz um discurso não sobre o amor, mas sobre Sócrates. Em seu discurso, Alcibiades fala sobre seu amor por Sócrates e a dificuldade de cortejá-lo. Sua descrição de Sócrates parece retratar alguém que completou a ascensão— uma pessoa que se preocupa com o conhecimento abstrato, em vez de prazeres ou dores físicas concretas. Os dois pontos principais de Alcibiades enfatizam Sócrates como um homem indiferente às coisas físicas:
1) Invertendo os papéis de amante e amado: Alcibiades , um belo jovem, esperava que Sócrates o cortejasse como amante de seu amado. No entanto, embora Sócrates gostasse de passar tempo com Alcibiades e conversar com ele, nunca demonstrou qualquer interesse sexual. Frustrado e apaixonado, Alcibiades inverteu a dinâmica normal: ele agiu como um amante cortejando Sócrates como seu amado. Apesar de suas investidas muito diretas, porém, Sócrates ainda assim nunca fez sexo com ele.
2) A força e a coragem de Sócrates: Alcibiades também aborda a força física e a resistência de Sócrates, bem como sua coragem. Ele afirma que Sócrates nunca parece ser afetado por desafios físicos como o frio, a embriaguez ou o cansaço. Além disso, ele fala sobre o tempo que passaram juntos na guerra, onde Sócrates nunca demonstrou medo e chegou até a salvar a vida de Alcibiades em uma batalha.
(Shortform : Compreender o papel de Alcibiades no *Simpósio* requer algum contexto histórico. O Alcibiades real foi um estadista ateniense que ficou famoso por ter desertado para o lado dos inimigos de Atenas durante a Guerra do Peloponeso. Os estudiosos sugerem que, no *Simpósio*, Platão relaciona os desejos físicos de Alcibiades com sua “corrupção” política e moral, mostrando que eles perturbam a vida virtuosa e filosófica. Isso fica evidente no discurso e nas ações de Alcibiades: ele invade a festa bêbado, fala fora de ordem (como Aristófanes), não fala sobre amor (falando, em vez disso, sobre sua luxúria por Sócrates — ele “rebaixa” o diálogo, levando-o da discussão sobre a beleza em si para a discussão sobre um indivíduo) e deixa a porta aberta para que outros entrem e causem caos.)
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Veja o que você encontrará em nosso resumo completo do Simpósio :
- As filosofias de Platão sobre o amor, a felicidade, a educação e a reprodução
- A descrição de Agatão sobre Eros, o deus do amor
- O que significa amar a beleza em si
