Resumo em PDF:Assim Falou Zaratustra, de Friedrich Nietzsche
Resumo do livro: Aprenda os pontos principais em poucos minutos.
Abaixo está uma prévia do resumo do livro "Assim falou Zaratustra", de Friedrich Nietzsche, publicado pela Shortform. Leia o resumo completo e detalhado na Shortform.
Resumo em PDF de uma página de Assim falou Zaratustra
Na década de 1880, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche escreveu Assim Falou Zaratustra como uma apresentação criativa de suas visões sobre a vida e a filosofia. O livro é uma história fictícia e poética sobre um profeta chamado Zaratustra. Grande parte do livro consiste em monólogos que Zaratustra dirige aos seus discípulos, seus animais de estimação (uma águia e uma cobra) ou pessoas que ele encontra na floresta perto da caverna que ele chama de lar.
Neste guia, examinaremos os ensinamentos de Zaratustra sobre o que são os seres humanos, o que eles podem se tornar e como você deve viver se quiser participar do avanço da humanidade. Também consideraremos as críticas de Zaratustra ao cristianismo, que estão espalhadas por seus ensinamentos e compõem grande parte do livro. No entanto, como veremos, Zaratustra compartilha mais ideias do que você poderia esperar com certos teólogos cristãos. Também traremos perspectivas adicionais de grandes pensadores como Stephen Hawking e Tom Rath.
(continuação)...
Força e resistência
Embora incentive as pessoas a buscar a felicidade, Zaratustra as adverte para que não busquem o conforto. Pelo contrário, ele enfatiza a importância de cultivar a força ao suportar as adversidades. Para que os seres humanos alcancem progresso evolutivo, a vida deve tornar-se mais difícil com o passar do tempo, de modo que os seres humanos se tornem mais fortes ao longo do tempo.
O principal exemplo que Zaratustra dá de como cultivar a resistência é a sua maneira de lidar com o frio do inverno: ele compara o inverno a um hóspede indesejado, de quem zomba tomando um banho frio todas as manhãs. Ao submeter-se a tal provação, Zaratustra se torna mais forte.
(Nota resumida: o exemplo de Zaratustra é particularmente interessante, já que, muitos anos depois, Wim Hof argumentaria (e, possivelmente, demonstraria) que é possível combater o estresse, curar-se e melhorar a saúde submetendo o corpo a temperaturas congelantes.)
Ajudar os outros
Zaratustra também aplica o princípio de cultivar força e resistência à maneira como você interage com as outras pessoas. Ele diz que você deve cultivar força nunca permitindo que os outros façam por você algo que você possa fazer por si mesmo, e nunca fazendo nada por outra pessoa que ela possa fazer por si mesma.
E quanto a ajudar as pessoas que não conseguem se ajudar sozinhas? Essa é uma questão um tanto ambígua. Em várias ocasiões, Zaratustra faz amizade com outras pessoas ou vai em seu auxílio. Mas ele também afirma que há muitas pessoas que não morrem cedo o suficiente. Quando você as vê caminhando para a destruição, não deve intervir para ajudá-las. Pelo contrário, deve procurar acelerar o seu fim. Ele se refere à piedade como seu “pecado supremo”.
(Nota resumida: Podemos inferir que Zaratustra acredita que muitas pessoas são, basicamente, ramos sem saída no caminho da evolução humana e que, quanto mais rápido elas desaparecerem, mais rápido a evolução poderá avançar. Isso explicaria por que ele ajuda algumas pessoas, mas não outras. Ele ajuda aqueles que considera candidatos ao progresso humano, mas não aqueles que são becos sem saída evolutivos.)
Zaratustra também ensina que receber ajuda de caridade é humilhante. E, como isso é humilhante para quem recebe, quem oferece a ajuda também se sente envergonhado, pelo menos se tiver alguma empatia pelo destinatário. Ele diz que prefere deixar que os pobres roubem dele a dar-lhes doações ou, pior ainda, vê-los mendigando por doações.
(Nota resumida: Podemos inferir que, na visão de Zaratustra, roubar é menos vergonhoso do que mendigar por duas razões. Primeiro, roubar não é necessariamente errado porque, como já discutimos, Zaratustra não acredita na moralidade tradicional e objetiva. Se você for bom em roubar ou tiver paixão por desenvolver suas habilidades como ladrão, Zaratustra consideraria isso uma de suas virtudes e o encorajaria a cultivá-la. Segundo, é preciso mais iniciativa para roubar algo do que para receber um presente ou pedir esmola. Isso torna o ato mais honroso porque, como discutiremos a seguir, Zaratustra enfatiza a importância da iniciativa.)
A natureza psicológica da pobreza
Estudos mais recentes sobre a pobreza e os métodos de combate à pobreza corroboram algumas das afirmações de Zaratustra. Em Quando Ajudar Prejudica, os missionários cristãos Steve Corbett e Brian Fikkert explicam que a pobreza não é apenas falta de dinheiro ou de recursos materiais. Fundamentalmente, a pobreza é um sentimento de vergonha e impotência que surge quando você é incapaz de cumprir seu propósito na vida.
Eles prosseguem, salientando que isso tem implicações significativas para os esforços de combate à pobreza: quando um missionário ou outro profissional humanitário intervém e dá algo a uma pessoa pobre ou faz algo para ajudá-la, isso muitas vezes insinua que a pessoa pobre não foi capaz de se ajudar a si mesma. Isso reforça seu sentimento de vergonha e impotência, acabando por agravar sua situação de pobreza, mesmo que a ajuda atenda temporariamente às suas necessidades físicas.
Ao contrário de Zaratustra, Corbett e Fikkert defendem ajudar os pobres a sair da pobreza, e não ajudá-los a desaparecer. Mas, assim como Zaratustra, eles aconselham a não fazer nada por uma pessoa pobre que ela possa fazer por si mesma. Eles oferecem conselhos sobre como capacitar os pobres para que possam ajudar a si mesmos, em vez de humilhá-los com esmolas que apenas agravam sua pobreza.
Livre arbítrio
Zaratustra afirma que a essência da vida é a “vontade de poder”. É isso que leva os animais a competir entre si, tornando possível o progresso evolutivo. Nos seres humanos, essa mesma força motriz gera uma hierarquia social, à medida que as pessoas competem entre si pelo poder.
Mas a “vontade de poder” de Zaratustra não se resume apenas a conquistar autoridade sobre os outros — ela tem ainda mais a ver com ter poder sobre si mesmo. O livre arbítrio humano lhe dá o poder de pensar por si mesmo e agir de acordo com seus desejos. O livre arbítrio também torna a criatividade possível, pois é preciso pensar por si mesmo para criar algo novo. Em particular, ele permite que você crie a si mesmo — em outras palavras, que seja diferente e único. Isso é essencial para o progresso evolutivo, pois a humanidade não pode progredir se todos forem iguais.
(Nota resumida: A questão de saber se a criatividade requer livre arbítrio é objeto de debate. Alguns estudos indicam que a criatividade aumenta o senso de liberdade de uma pessoa, sugerindo uma conexão entre livre arbítrio e criatividade que tende a corroborar a perspectiva de Zaratustra. No entanto, desde aproximadamente 2022, os computadores tornaram-se muito eficientes na produção de obras de arte gráficas e outros materiais que tradicionalmente se acreditava exigirem criatividade humana. Os computadores, é claro, não têm livre arbítrio, o que levanta questões sobre a definição de criatividade. Se o conteúdo gerado por IA pode realmente ser considerado criativo, então a criatividade não requer livre arbítrio.)
Além disso, Zaratustra o incentiva a tomar a iniciativa de pensar e agir por conta própria, pois é o exercício do livre arbítrio que o faz sentir-se livre. Por outro lado, se você sempre se submeter às ideias alheias sobre o que deve fazer e quem deve ser, ou se conformar com as normas sociais em vez de pensar por si mesmo, sua vida parecerá vazia, pois você terá renunciado ao seu livre arbítrio e, com ele, à essência da sua vida.
O debate sobre o livre arbítrio
Há um debate em curso sobre o significado do livre arbítrio — e até mesmo sobre a sua existência. Alguns, como Yuval Noah Harari, autor de 21 Lições para o Século XXI, argumentam que o livre arbítrio é uma ilusão. O que você percebe como sua vontade é produzido por reações bioquímicas em seu cérebro, que, por sua vez, são desencadeadas por estímulos em seu ambiente. Por exemplo, se você sentir perigo, naturalmente vai querer fugir.
Portanto, segundo Harari, o seu “livre arbítrio” e as decisões que você pensa tomar não são, na verdade, livres. Em vez disso, elas são limitadas pela sua constituição biológica. Ele prossegue prevendo que até mesmo o significado ilusório das suas decisões provavelmente diminuirá no século XXI, à medida que os algoritmos de computador tomam cada vez mais decisões por nós.
Como, assim como Harari, Zaratustra acredita que a alma — e, portanto, também a vontade — são apenas parte do corpo, talvez seja difícil para ele refutar o argumento de Harari. Esse é, sem dúvida, um ponto de inconsistência nos ensinamentos de Zaratustra.
No entanto, outros estudos indicam que exercer deliberadamente o livre arbítrio tem um efeito empoderador na sua vida, o que leva a um maior sucesso. Em Mais Inteligente, Melhor, Mais Rápido, Charles Duhigg aconselha que você crie o hábito de escolher fazer coisas que vão contra as regras ou que desafiam o status quo. Ele afirma que essas “decisões subversivas” lhe darão uma maior sensação de controle, o que, por sua vez, ampliará sua motivação. E uma maior motivação levará a um maior sucesso. Assim, os estudos de Duhigg refutam, sem dúvida, o argumento de Harari — ou, pelo menos, sua conclusão de que o livre arbítrio não é importante — e apoiam a posição de Zaratustra.
Indo além da vingança
Por mais que você assuma com determinação a iniciativa de conduzir sua própria vida, às vezes acontecem coisas que você não deseja porque são provocadas por outras pessoas. Zaratustra observa que isso tende a ofender sua “vontade de poder”. Quando ocorre algo que você não queria, seu livre arbítrio fica frustrado porque, embora possa moldar o futuro, não consegue alterar o passado.
Por exemplo, imagine que você decida passar férias em um resort à beira-mar em outro país. Mas o motorista de táxi que deveria levá-lo do aeroporto até o resort, em vez disso, o leva para a selva e o assalta, levando seu dinheiro, seus documentos e seu passaporte. Depois que ele desaparece, você fica com raiva e frustrado — não era isso que você tinha em mente quando planejou suas férias.
Zaratustra diz que, quando isso acontece, a única maneira de resolver verdadeiramente o problema é convencer-se de que, afinal, o que aconteceu era exatamente o que você queria. Você não pode mudar o passado, mas pode mudar o que deseja, tanto para o futuro quanto para o passado. No nosso exemplo, talvez você tenha aprendido algumas técnicas de sobrevivência na selva e feito amizade com alguns moradores locais que o ajudaram a voltar para casa. Olhando para trás, você na verdade fica feliz que isso tenha acontecido, pois acabou construindo relacionamentos valiosos, sentindo-se mais autossuficiente e tendo uma história muito melhor para contar aos seus netos do que se suas férias tivessem corrido conforme o planejado.
(Nota resumida: Em A Arte da Felicidade, o Dalai Lama afirma que o sofrimento humano é causado pelo ódio, pelos desejos ou por outros pensamentos e sentimentos negativos. Ele afirma ainda que, como a causa do sofrimento é interna, você pode superar seu sofrimento mudando sua perspectiva: se você aprender a ver as dificuldades que seus inimigos lhe causam como oportunidades para amadurecer, cultivando tolerância e bondade para com eles, você não sofrerá mais por causa do que eles fizeram a você. Isso tende a complementar a perspectiva de Zaratustra, reforçando a ideia de que você pode deixar de lado a frustração com o passado mudando a forma como se sente em relação aos eventos passados.)
No entanto, Zaratustra observa que muitas pessoas não agem assim. Em vez disso, elas buscam vingança. Na visão de Zaratustra, conceitos como justiça e punição são apenas eufemismos para vingança, e as instituições governamentais que fazem valer a “justiça” estão apenas facilitando a vingança. Zaratustra não vê valor algum na vingança e acredita que abandonar a vingança (e a imposição da justiça) será um marco significativo na evolução humana.
Portanto, se alguém te prejudicar, Zaratustra aconselha que a melhor coisa a fazer é convencer tanto a si mesmo quanto à pessoa que te prejudicou de que o que ela fez, na verdade, te beneficiou. Por exemplo, se ela fez algo que te causou dificuldades, talvez o fato de ter suportado essas dificuldades tenha te tornado mais forte. E a segunda melhor coisa que você pode fazer, segundo Zaratustra, é retaliar da mesma forma. Ele descreve isso como competir com a pessoa que lhe fez mal, o que, para ele, é diferente de se vingar.
(Nota resumida: A ideia de retaliação sem vingança pode parecer contraditória, mas podemos inferir da discussão de Zaratustra que a diferença reside no motivo. A vingança busca corrigir os erros do passado, o que ele considera um motivo contraproducente, pois não é possível mudar o passado. Mas o comportamento competitivo busca mudar o futuro de forma a torná-lo melhor para você do que para quem quer que seja seu adversário. Assim, se alguém roubou dinheiro de você, levá-la ao tribunal e exigir justiça seria vingança, pois você está motivado pelo desejo de desfazer o passado. Mas roubar seu dinheiro de volta com juros seria apenas competição, pois você tem como objetivo melhorar seu futuro.)
Zaratustra e Bonhoeffer sobre a vingança
A comparação entre os ensinamentos de Zaratustra sobre a vingança e os de Dietrich Bonhoeffer nos mostra que ambos chegaram a conclusões notavelmente semelhantes a partir de pontos de vista diametralmente opostos. Assim como Nietzsche, Bonhoeffer viveu na Alemanha, e ambos criticaram a Igreja cristã. Mas enquanto Zaratustra defendia o abandono da religião cristã, Bonhoeffer defendia a sua restauração.
Quando Bonhoeffer descreveu como deveria ser a prática do verdadeiro cristianismo em O Preço do Discipulado, abster-se da vingança foi um de seus pontos-chave. Ele argumentou que a vingança é o que permite que o mal se reproduza; portanto, abster-se da vingança permite que o mal morra. (Ao contrário de Zaratustra, Bonhoeffer acreditava firmemente no bem e no mal objetivos.)
Portanto, se alguém lhe fizer mal e você tentar corrigir o erro, seja levando-a ao tribunal ou fazendo justiça com as próprias mãos, sua vingança apenas perpetua o mal que foi feito. A única maneira de deter o mal, segundo Bonhoeffer, é aceitar com alegria o que lhe foi feito e perdoar a pessoa que lhe causou o mal.
Assim, apesar de suas profundas divergências, tanto Bonhoeffer quanto Zaratustra aconselham que você aceite o passado tal como ele é e evite buscar vingança ou “justiça” por meios terrenos. No entanto, enquanto Zaratustra tolera a retaliação competitiva, pelo menos em alguns casos, Bonhoeffer considera todas as formas de retaliação como vingança.
Crítica ao cristianismo
Ao compartilhar sua sabedoria, Zaratustra provavelmente passa mais tempo alertando seus ouvintes sobre o que não fazer e não ser do que ensinando-os como agir. E a maioria de suas advertências gira em torno de suas críticas à Igreja Cristã e a todas as “boas pessoas” que endossam e impõem os valores sociais ensinados pelo cristianismo. Agora que discutimos os ensinamentos filosóficos de Zaratustra, vamos compará-los com o que ele diz que os cristãos acreditam e praticam.
Criticando a ideia cristã sobre o que são os seres humanos
O cristianismo ensina que o corpo e a alma são distintos um do outro. O corpo é a parte de você que existe no reino físico, enquanto a alma existe no reino espiritual, onde pode continuar viva após a morte do corpo. Mas Zaratustra argumenta que tentar separar o físico do espiritual não é saudável, pois leva os cristãos a enfatizar a importância do bem-estar espiritual, enquanto minimiza a importância do bem-estar físico. Podemos inferir que, na sua opinião, não se pode ter um espírito saudável sem ter um corpo saudável, uma vez que Zaratustra acredita que o seu espírito é apenas parte do seu corpo.
(Nota resumida: Embora praticamente todos os cristãos concordem que o espírito não é apenas parte do corpo e que terá vida após a morte, eles têm diferenças de opinião sobre exatamente como o espírito e o corpo se relacionam entre si na Terra. Alguns cristãos, como Dietrich Bonhoeffer, defendem o bem-estar espiritual mesmo à custa do bem-estar físico por meio do ascetismo, exatamente como Zaratustra alega. Mas outros cristãos, como Norman Vincent Peale, argumentam que o corpo e o espírito estão tão intimamente ligados que é preciso manter o espírito saudável para manter o corpo saudável.)
Criticando a crença em Deus
Zaratustra afirma que Deus e toda a realidade espiritual em que os cristãos acreditam são imaginários, e apresenta argumentos tanto emocionais quanto racionais para sustentar sua posição. No plano emocional, ele diz que não consegue acreditar na existência de deuses sobre-humanos porque, se eles existissem, ele não suportaria viver como um mero ser humano.
(Nota resumida: Podemos deduzir que isso se deve ao fato de que o propósito de vida de Zaratustra é servir de trampolim no caminho da evolução humana. Seu objetivo final, para si mesmo e para toda a humanidade, é promover a evolução dos super-humanos. Mas, se já existissem divindades super-humanas, ele perderia seu propósito de vida, pois elas não precisariam dele para surgir por meio da evolução humana. Como ser humano em um mundo onde existem divindades super-humanas, ele seria um ser inferior destinado à extinção.)
O argumento racional de Zaratustra gira em torno da identidade de Deus como criador do mundo. Zaratustra argumenta que Deus não poderia ter criado o mundo porque Deus, por definição, é perfeito, e o mundo está tão repleto de imperfeições e aleatoriedade que não pode ser a criação de um Deus perfeito. Portanto, o mundo deve ser o produto de processos aleatórios, e Deus não deve existir.
Como Deus pode criar um mundo imperfeito
Os cristãos apresentaram pelo menos dois contra-argumentos à alegação de Zaratustra de que o mundo é imperfeito e aleatório demais para ter sido criado por um Deus perfeito.
Atribui-se toda a desordem e imperfeição do mundo à rebelião dos seres humanos contra a ordem criada por Deus. Deus criou um mundo perfeito, mas os seres humanos corromperam a criação por meio do pecado. Uma variante desse argumento atribui parte da culpa a Satanás, que também se rebelou contra Deus e tentou os primeiros seres humanos a fazer o mesmo.
O outro argumento é que este mundo é perfeito para os propósitos para os quais Deus o concebeu. Deus nunca pretendia que este mundo durasse para sempre. Em vez disso, Ele o criou como um palco temporário para todo o drama da história humana. Todas as suas “imperfeições”, como a morte e a doença, acabam por resultar para o melhor, seja refinando o caráter das pessoas, impedindo-as de cometer pecados maiores umas contra as outras, ou servindo a algum outro propósito. E algum dia, quando a história humana tiver seguido seu curso, Deus destruirá este universo e criará um mundo novo e mais permanente, onde as pessoas que se reconciliaram com Deus nesta vida viverão com ele para sempre.
A vantagem da aleatoriedade
Zaratustra prossegue dizendo que este mundo aleatório, imperfeito e em constante mudança é melhor do que qualquer mundo perfeito e eterno que Deus pudesse ter criado. Isso porque a criatividade e o progresso são possíveis neste mundo e são o que dá sentido à vida. Mas, em um mundo perfeito e imutável, não restaria nada para criar e, portanto, não haveria razão para viver.
(Nota resumida: Alguns cristãos discordariam da afirmação de Zaratustra de que a criatividade só tem sentido em um mundo criado por processos aleatórios. Eles afirmam que a criatividade é uma forma pela qual os seres humanos podem tanto glorificar a Deus quanto se relacionar com Ele, pois a criatividade é uma característica que reflete o caráter de Deus como criador. Isso torna a criatividade uma virtude importante tanto para os cristãos quanto para os discípulos de Zaratustra, já que os cristãos encontram propósito e sentido em seu relacionamento com Deus.)
A morte de Deus
Embora às vezes defenda diretamente a inexistência de Deus, Zaratustra costuma considerar Deus como alguém que existiu, mas que morreu recentemente. Ele repete várias vezes que “Deus está morto”.
Em vários momentos, ele sugere que a compaixão de Deus pela humanidade foi uma fonte de tanto estresse para ele que acabou adoecendo e, por fim, morrendo. Em certa ocasião, Zaratustra encontra o papa, que corrobora essa versão. O papa afirma ter estado ao lado de Deus em suas últimas horas e ter visto Deus morrer com seus próprios olhos.
Mas, em outra ocasião, Zaratustra encontra um homem que confessa ter assassinado Deus. Seu motivo para o assassinato foi que ele não conseguia escapar da piedade de Deus nem da vergonha que o fato de ser alvo dessa piedade lhe causava.
(Nota resumida: Nietzsche afirma que “Deus está morto” também em alguns de seus outros livros, nos quais ele aprofunda o que quer dizer com isso. Nietzsche acreditava que Deus só existia na imaginação das pessoas; portanto, Deus “morreria” se elas deixassem de acreditar nele. Assim, os diversos relatos de Zaratustra sobre a morte de Deus são simplesmente imagens poéticas que Nietzsche utilizou para expressar sua descrença em Deus e destacar sua perspectiva de que a piedade era um vício.)
Uma crítica ao conceito cristão de virtude
Quando Zaratustra discute como os seres humanos devem viver, ele frequentemente contrasta sua perspectiva com a da Igreja Cristã. Já discutimos a visão de Zaratustra sobre a virtude, mas vamos recapitular brevemente seus valores aqui para mostrar os principais contrastes com o cristianismo que ele aborda:
- Zaratustra defende a individualidade, argumentando que o certo e o errado não são os mesmos para todos. O cristianismo defende a conformidade com um padrão objetivo do certo e do errado.
- Zaratustra ensina o amor próprio. O cristianismo ensina a abnegação.
- Zaratustra aconselha que você seja alegre e apaixonado. Os cristãos tendem a ser solenes e moderados.
- Zaratustra considera que o conceito de justiça é contraproducente. Os cristãos acreditam na justiça moral e civil.
- Zaratustra acredita que o desejo de poder não só é saudável, como também é crucial para o progresso da humanidade. Os cristãos alertam que desejar o poder é prejudicial.
Até que ponto Zaratustra descreveu bem o cristianismo?
A maneira como Zaratustra retrata os cristãos ao contrastar suas visões com as deles é, sem dúvida, imprecisa, ou pelo menos incompleta. Vamos completar sua descrição do que o cristianismo ensina sobre os assuntos que ele menciona:
Individualidade: Zaratustra está certo ao afirmar que os cristãos promovem a conformidade com um padrão moral, mas também promovem um certo grau de individualidade dentro desse padrão moral. Os cristãos se referem à Bíblia como um padrão de moralidade objetiva, mas a Bíblia também ensina que Deus confere a cada cristão tarefas únicas a realizar ou papéis a desempenhar.
Alguns cristãos, como Dietrich Bonhoeffer, levaram o conceito de individualidade cristã ainda mais longe, argumentando que todo cristão verdadeiro mantém uma relação dinâmica e pessoal com Cristo: Cristo diz exatamente o que você deve fazer, e o verdadeiro cristianismo consiste em obedecer a Cristo, não em se conformar a doutrinas codificadas, por si só. Presumivelmente, isso não se transforma em moralidade relativa, porque Cristo nunca lhe diria para roubar, matar ou fazer outras coisas que a Bíblia diz serem más, mas torna a virtude uma questão muito pessoal, assim como a perspectiva de Zaratustra.
Amor próprio: a percepção de Zaratustra de que os cristãos incentivam a ser altruísta, e não egoísta, está em grande parte correta, embora haja nuances na forma como os cristãos abordam o conceito de amor próprio. Alguns cristãos destacam que, para que o mandamento de Cristo de “amar o próximo como a si mesmo” tenha sentido, é preciso amar a si mesmo. Mas outros cristãos alertam que os seres humanos são tão inatamente egocêntricos que praticar deliberadamente o amor-próprio é contraproducente. Em vez disso, eles argumentam que o foco do mandamento de Cristo está em amar os outros, o que é um desafio constante.
Joy: É possível que os cristãos que Nietzsche conheceu pessoalmente fossem pessoas sérias ou até mesmo infelizes, mas, se fosse esse o caso, eles não eram representativos do cristianismo como um todo. A Bíblia exorta os cristãos a serem alegres e gratos, independentemente das circunstâncias, e as pessoas religiosas são, estatisticamente, mais felizes do que as não religiosas.
Justiça: A maioria dos cristãos acredita numa justiça civil compatível com a descrição de Zaratustra, mas há exceções. Por exemplo, como discutimos anteriormente, Dietrich Bonhoeffer acreditava que os cristãos deveriam buscar justiça apenas em Deus, e não nos governos civis.
Poder: Como já discutimos, o conceito de Zaratustra sobre o desejo de poder abrange tanto o poder de conduzir a própria vida como se entender, quanto a competição pelo poder ou pela superioridade sobre outras pessoas. Uma vez que o cristianismo ensina que devemos nos submeter à vontade de Deus, procurar ajudar os outros e evitar conflitos com eles na medida do possível, à primeira vista, os ensinamentos cristãos se opõem às ideias de Zaratustra sobre o desejo de poder.
No entanto, há algumas nuances que tornam a controvérsia menos acirrada. Por um lado, alguns cristãos argumentam que aceitar a salvação de Cristo, na verdade, proporciona maior controle sobre as próprias ações. A ideia é que, depois que você se torna cristão, Deus lhe dá o poder de superar sua própria natureza pecaminosa. Isso, por sua vez, lhe dá mais liberdade para fazer o que você acredita ser certo e para se abster do mal. Isso poderia ser considerado um análogo cristão ao desejo de Zaratustra de ter poder para viver como bem entender.
Além disso, ao discutir como a competição pelo poder cria uma hierarquia social, Zaratustra afirma que o desejo de poder leva a pessoa a obedecer a quem é poderoso demais para ser derrotado. Isso porque, mesmo sob o domínio desses indivíduos, a pessoa ainda detém mais poder do que teria se entrasse em conflito com eles e perdesse. Se existe um Deus todo-poderoso, como acreditam os cristãos, então os cristãos que se submetem à vontade de Deus poderiam ser vistos como agindo de acordo com o conselho de Zaratustra de alcançar o poder associando-se a entidades mais poderosas.
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